
O engenheiro civil César Drucker, de 93 anos, conselheiro vitalício do Clube de Engenharia e da SEAERJ e conselheiro suplente do CREA-RJ, foi homenageado pela Mútua – Caixa de Assistência dos Profissionais do CREA, como o mutualista com mais idade na 80ª SOEA, no dia 8 de outubro de 2025. Ele recebeu a placa das mãos do diretor geral da Mútua, engenheiro civil Joel Krüger.
Drucker já havia sido homenageado pelo CREA-RJ, na cerimônia comemorativa dos 90 anos do Conselho, que aconteceu no Palácio Tiradentes, antiga sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – Alerj, em 2024. Na ocasião, ele tinha 92 anos, dois a mais que o CREA-RJ.
Confira a entrevista de César Drucker.
O que esta homenagem significa para o senhor?
Eu já tinha sido homenageado pelo CREA-RJ quando ele completou 90 anos, em 2024, em solenidade na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, por motivo de dedicação à entidade de classe Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro – Seaerj. Na ocasião eu era mais velho que o CREA-RJ, tinha 92 anos.
Penso que a presente homenagem representa a confirmação, em nível nacional, da minha proposta , elaborada em nível estadual , para que todos os profissionais, após a passagem para a aposentadoria, venham participar ativamente nas suas entidades de classe, não importa a idade. A pergunta é: se há colegas com mais de 90 anos participando regularmente da sua entidade de classe, porque não participar também?
O que está escrito na placa ?
Na placa com que fui agraciado pelo presidente nacional da Mútua, engenheiro Joel Krüger, no final da SOEA 2025, em Vitória (ES), há uma extensa descrição, que poderia ser condensada em: ”Homenagem ao mutualista de maior idade da 80ª SOEA, pelo exemplo de dedicação, pioneirismo, compromisso com nossa entidade, e trajetória que inspira as novas gerações”.
Há quantos anos é mutualista?
Comecei a me interessar pelos assuntos da Mútua em 2018, quando meu amigo e ex-presidente da Seaerj, Luiz Felipe Pupe de Miranda, teve o primeiro cargo de diretor geral da Mútua RJ. Em 2024 me associei. Acho que a Mútua é um instrumento fundamental para a proteção social de engenheiros e agrônomos. Digo isso baseado na minha atividade de dezenas de anos na área da previdência dos servidores estaduais do Estado do Rio de Janeiro.
E há quanto tempo é engenheiro?
Sou engenheiro há 68 anos, pois formei-me em 1957, em Engenharia Civil pela Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, no Largo de São Francisco. A turma foi destacada, pois demos um Ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, e um presidente do BNDES, Marcos Pereira Vianna. Mas a minha vida de trabalho tem mais de 70 anos. No segundo ano da faculdade, fui contratado como monitor na cadeira de Física II, cujo catedrático era o professor Antônio José da Costa Nunes, pai do estudo de Mecânica dos Solos no país. Então está acontecendo comigo uma contagem de tempo que nunca ocorreu antes. Trabalhei 35 anos para me aposentar, e estou trabalhando outros 35 anos nas entidades de classe da profissão. A força de trabalho crescente da terceira idade é assunto para ser estudado no mundo do trabalho.
Como tudo começou ? Porque escolheu ser engenheiro?
Foi um encaminhamento natural. Quando criança, eu gostava de ferramentas, abria os aparelhos da casa, consertava coisas. Construía carrinhos para descer em ladeiras, era aeromodelista. Exame vestibular só fiz para Engenharia. Acho importante destacar que sempre quis ser engenheiro do serviço público. Nada contra a iniciativa privada. Mas minha vocação é agir no interesse da sociedade.
O que a profissão significa para o senhor?
Tive a sorte de que minha vida laboral decorreu em duas épocas seguidas de intensa atividade da Engenharia. No então Distrito Federal e posterior Estado da Guanabara participei das grandes obras de saneamento executadas pela Sursan – Superintendência de Urbanização e Planejamento, e fiz parte da equipe do governador Carlos Lacerda que tratava no Banco Interamericano de Desenvolvimento do financiamento para estas obras . Editei a revista “Engenharia Sanitária”, sobre setor que teve grande desenvolvimento nessa época. Ela existe até hoje, e se tornou o órgão da Abes RJ – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental , com o nome de “Engenharia Sanitária e Ambiental”. Após a extinção da Sursan, integrei, desde a sua fundação, a Companhia do Metropolitano do Rio de Janeiro – Metrô, e participei de curso sobre a construção metroviária no Japão.
Que legado o senhor quer deixar para a sociedade?
Penso que minha imagem já está estabelecida perante meus familiares, cônjuge, amigos e colegas de profissão. Além do desempenho profissional, fazem parte da imagem outras atividades.
O senhor tem forte atuação nas entidades de classe.
Na Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro – Seaerj, comecei ajudando a criar uma Diretoria Assistencial, para atender aos aposentados e aos pensionistas. Hoje, sou conselheiro vitalício da entidade. Participei da criação do Centro Cultural da Seaerj, do qual fui presidente. No Clube de Engenharia do Brasil, participo do Conselho Diretor como conselheiro vitalício. Já integrei a Diretoria durante seis anos como diretor cultural.
Como foi a sua atuação política na época da faculdade?
Quando eu era aluno na faculdade, fui eleito, no Diretório Acadêmico, para diretor cultural. Isto abrangia biblioteca, xadrez e pingue-pongue. O meio político estava agitado devido à votação do projeto de lei que criava a Petrobras. Os estudantes participavam da greve geral em apoio ao projeto. Desmontamos as mesas de pingue-pongue no quarto andar e as remontamos na Avenida Passos no meio dos trilhos do bonde. Ficamos jogando pingue-pongue para impedir o tráfego. Nossas bandeiras eram Desenvolvimentismo e Industrialização. Hoje, no Clube de Engenharia, são Soberania e Inovação. Mudam os nomes, mas ao longo do tempo os ideais são os mesmos.
Como foi a participação na Marcha dos 100 mil?
Em 1968, ocorreu “A Marcha dos 100 mil”, histórica manifestação popular que pedia o retorno das liberdades democráticas. Participei ao lado de artistas, intelectuais e estudantes. Eu era engenheiro da Sursan, e devido a esta participação, fui ameaçado e revidei. O incidente teve expressiva repercussão dentro do órgão.
O senhor sempre lutou pelo direito dos idosos.
Na atenção aos servidores idosos, aposentados e pensionistas, fui membro do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa. Em seguida, fui eleito pelos servidores como um dos seus representantes no Conselho de Administração do RioPrevidência. Escrevi o livro “A Nova Previdência dos Servidores Estaduais”, em 2001. Devido à mudança demográfica mundial, participei na sede das Nações Unidas em Nova Iorque das Assembleias Gerais de 1999 e 2000, no capítulo “Agenda dos Idosos “.
Que mensagem o senhor quer deixar para finalizar?
Finalizando com uma homenagem a meus pais, lembro que na minha família tivemos muitas mulheres fortes. Quando eu era guri, minha mãe lembrava que, quando criança, via sua mãe, portanto minha avó, montada em cavalo pastoreando o gado. Talvez por isso sempre apoiei todas as iniciativas que visavam ao crescimento e participação de engenheiras e arquitetas.
Como inspiração, lembro do embalar de minha mãe, com a poesia de Gonçalves Dias “A Canção do Tamoio” :
“Não chores, meu filho
Não chores, que a vida
É luta renhida
Viver é lutar
A vida é combate
Que os fracos abate
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar”