Domo de Araguainha, uma cicatriz de 250 milhões de anos, no coração do Brasil

Na divisa entre os estados de Goiás e Mato Grosso, entre as pequenas vilas de Araguainha e Ponte Branca, encontra-se um verdadeiro monumento natural que poucos brasileiros conhecem: o Domo de Araguainha. Trata-se da maior cratera de impacto meteórico já registrada no Brasil — e também em toda a América do Sul. Com impressionantes 40 quilômetros de diâmetro, a estrutura é resultado do choque de um asteroide contra a crosta terrestre, há cerca de 250 milhões de anos.

A colisão ocorreu no fim do período Permiano, quando a região fazia parte de um mar raso que recobria grande parte do supercontinente Gondwana. Estimativas baseadas em datações isotópicas (U–Pb) indicam que o impacto se deu por volta de 254,7 ± 2,5 milhões de anos atrás, coincidindo, em termos geológicos, com o evento de extinção em massa que dizimou cerca de 90% das espécies do planeta — o maior da história da Terra.

À primeira vista, a cratera não se parece com uma típica cavidade circular. Com o passar do tempo, o impacto foi sendo disfarçado por processos erosivos e deposições sedimentares. Mas o que ainda impressiona é o domo central elevado, com cerca de cinco quilômetros de diâmetro, formado por rochas como granito alcalino (datado em aproximadamente 512 milhões de anos) e sedimentos mais antigos, como filitos e meta-arenitos neoproterozoicos — materiais que antes se encontravam a quilômetros de profundidade.

Essa elevação no centro da cratera foi causada por um fenômeno conhecido como “rebound” elástico: após o impacto, as camadas da crosta se comportaram como um líquido sendo atingido por uma gota, criando uma elevação central devido à força do choque. Ao redor desse núcleo, há uma faixa anelar de arenitos deformados, brechas e suevitos — rochas fragmentadas e parcialmente fundidas durante o impacto, características típicas de crateras de origem extraterrestre.

Reconhecida como geossítio de importância internacional e incluída na lista dos 100 patrimônios geológicos mundiais da IUGS, a cratera de Araguainha tem sido objeto de estudo de geólogos desde a década de 1970. A estrutura guarda pistas valiosas sobre processos geológicos extremos e fornece dados essenciais para áreas como estratigrafia, petrologia, geoquímica e geologia estrutural.

Hoje, Araguainha é considerada uma espécie de “livro aberto” para a história da Terra, e vem sendo cada vez mais visitada por pesquisadores, estudantes e entusiastas. O local também possui potencial turístico, com trilhas geológicas, mirantes e afloramentos expostos — e poderia ser transformado em um parque geológico de interesse nacional, ajudando a promover o turismo sustentável e a educação científica.

Apesar de seu valor natural e científico, a cratera enfrenta desafios. A construção da rodovia MT-100, por exemplo, que corta parte da borda norte da estrutura, pode gerar impactos ambientais caso não haja fiscalização e preservação adequadas. Para especialistas, o ideal seria integrar a região a políticas de conservação e incentivo à ciência, valorizando esse verdadeiro tesouro geológico.

Descoberta por acaso em 1969 e identificada como cratera de impacto apenas anos depois, Araguainha ainda guarda muitos segredos sob seus solos vermelhos. Ela é, ao mesmo tempo, uma cicatriz e um testemunho do passado planetário — e segue esperando que mais brasileiros a descubram.

Fonte: artigo da Coluna Deriva Continental (Superinteressante), dos geólogos Álvaro Penteado Crósta, Natalia Hauser, Wolf Uwe Reimold e Joana Paula Sánchez.

https://super.abril.com.br/coluna/deriva-continental/conheca-o-domo-de-araguainha-a-maior-cratera-de-impacto-meteoritico-do-brasil

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