Sugarcrete: cientistas criam concreto a partir dos resíduos da cana-de-açúcar

Pesquisadores da University of East London (UEL), em parceria com os arquitetos da Grimshaw e a fabricante de açúcar Tate & Lyle Sugar, desenvolveram um concreto a partir do bagaço da cana-de-açúcar, chamado de Sugarcrete. A invenção tem como objetivo investigar soluções sustentáveis na área da construção por meio da reciclagem de biomateriais e reduzir as emissões de gases de efeito estufa. 

Sugarcrete, além de ser tão resistente quanto o concreto tradicional, tem tempo de cura reduzido, levando apenas uma semana, enquanto o tradicional leva quatro; é mais leve, custa muito mais barato e tem pegada de carbono de apenas 15% a 20%. De acordo com os pesquisadores, se o Sugarcrete substituísse completamente a indústria tradicional de tijolos, geraria uma economia de 1,08 bilhão de toneladas de CO², o que corresponde a 3% da produção global de gás carbônico.

“O projeto começou como parte de uma pesquisa dentro do Mestrado em Arquitetura da Universidade de East London (UEL), que se preocupa com o uso de soluções inovadoras de construção que abordam questões locais. Enquanto trabalhava em propostas de reconstrução em Silvertown, nas docas, nos envolvemos com o tecido industrial existente da área e começamos a olhar para os subprodutos como alternativas de construção, incluindo sobras de produção de açúcar da Tate & Lyle. As explorações iniciais foram ainda mais testadas e otimizadas usando nossas instalações de ponta no Instituto de Pesquisa de Sustentabilidade (SRI) e, posteriormente, implantadas como Sugarcrete Slab em parceria criativa com arquitetos em Grimshaw e engenheiros da AKT II. ” afirma Armor Gutierrez Rivas, professor sênior em Arquitetura. 

O material também é mais barato, principalmente em regiões onde a cana de açúcar é cultivada, como no Brasil, que na safra de 2023/2024, a produção registrou 713,2 milhões de toneladas e estabelece novo recorde na série histórica acompanhada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). As condições climáticas e os investimentos do setor proporcionaram esse resultado, com destaque para a recuperação da produtividade no centro-sul do país.

O Sugarcrete também foi prototipado usando modelagem digital avançada e fabricação robótica. Apresenta, assim, propriedades mecânicas, acústicas, e térmicas de alta qualidade, testado de acordo com os padrões da indústria para a resistência ao fogo, resistência à compressão, condutividade térmica e durabilidade, podendo ser empregado como painéis de isolamento, blocos de suporte de carga, pisos estruturais e lajes de telhado. 

O método de produção é parecido com o tijolo comum, envolvendo mistura, fundição e secagem de materiais. Porém, utiliza até 90% de aço, resultando em estruturas mais leves e com menores riscos à rachaduras, diminuindo também a quantidade de recursos naturais no processo de construção. Além desses benefícios, até a sua estrutura foi pensada para ser utilizada sem a necessidade de argamassa: os pesquisadores integraram o conceito de geometrias entrelaçadas para facilitar a sua aplicação, técnica criada e patenteada em 1699 pelo engenheiro francês Joseph Abeille, sendo revisada por Amédée François Frézier em 1739, e Truchet em seu Traité de Stéréotomie en 1737. 

“A ética da inovação material para lidar com a crise climática deve projetar a cadeia de suprimentos, bem como a especificação de desempenho. O carbono está no topo da lista; Também devemos mencionar a toxicidade em relação à saúde e a segurança nos processos de construção. Usando bagaço e outros produtos biológicos de crescimento rápido em combinação com ligantes minerais inertes não apenas para camadas de isolamento, mas também para estruturas, elimina as linhas de produtos quimicamente malignas e baseadas em combustíveis das obras. Isso responde diretamente às prioridades de segurança da Lei de Segurança de Construção durante as sequências de fabricação, construção, demolição, reutilização e descarte”, conta a arquiteta da Grimshaw. 

Em 2023, o Sugarcrete foi o vencedor na categoria de economia circular, com foco nos projetos que diminuem resíduos que seriam descartados, do Climate Positive Award pelo grupo de ambientalistas Green Cross UK, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. 

Fontes: Agência Gov; ArchDaily; União Nacional da Bioenergia (Udop) e Visão Agro.

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