Erupção submarina em Tonga revelou mecanismo natural de destruição de metano na atmosfera

A erupção do vulcão submarino Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, ocorrida em 15 de janeiro de 2022 no Pacífico Sul, produziu uma das explosões mais intensas registradas na era moderna. Audível a centenas de quilômetros de distância, o evento gerou ondas superiores a um metro na costa de Tonga e lançou uma nuvem gigantesca de cinzas, vapor e gases até aproximadamente 55 quilômetros de altitude, injetando cerca de 146 teragramas de vapor d’água diretamente na estratosfera. Agora, anos depois do evento, um estudo publicado em maio de 2026 na revista científica Nature Communications revelou um efeito inesperado daquela erupção: a própria nuvem vulcânica destruiu parte do metano que havia liberado na atmosfera.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional composta por pesquisadores de instituições dos Países Baixos, Bélgica, Dinamarca, Espanha e Reino Unido, com financiamento da organização Spark Climate Solutions. O trabalho foi publicado com o título “Satellite quantification of enhanced methane oxidation applied to the stratospheric plume following Hunga Tonga-Hunga Ha’apai eruption”, na edição de maio de 2026 da Nature Communications.

A descoberta partiu da análise de dados do satélite Sentinel-5P, da Agência Espacial Europeia. Ao examinar as imagens da nuvem vulcânica, os pesquisadores identificaram concentrações excepcionalmente elevadas de formaldeído – composto que se forma como subproduto da decomposição do metano na atmosfera e que serve como indicador químico desse processo. A nuvem de formaldeído foi rastreada por dez dias consecutivos, até alcançar a América do Sul. Como o formaldeído tem vida útil de apenas algumas horas, a presença contínua do composto ao longo de todo esse trajeto indicou que a destruição de metano ocorreu de forma ininterrupta por mais de uma semana.

O mecanismo responsável pelo fenômeno envolveu uma combinação de elementos lançados pela erupção. A explosão projetou para a estratosfera uma quantidade de vapor d’água salgado equivalente ao volume de cerca de 58 mil piscinas olímpicas, além de grandes quantidades de cinzas vulcânicas e partículas minerais. Quando a luz solar atingiu essa mistura, formaram-se radicais de cloro altamente reativos, que interagiram com as moléculas de metano presentes, acelerando sua decomposição. Os pesquisadores estimam que a erupção liberou aproximadamente 300 gigagramas de metano, volume comparável às emissões anuais de mais de dois milhões de bovinos, e que a nuvem removeu cerca de 900 megagramas desse gás por dia durante o evento.

Os autores do estudo destacaram que um processo químico semelhante já havia sido identificado anteriormente sobre o Oceano Atlântico, envolvendo poeira do Saara e sal marinho, mas nunca havia sido observado na alta estratosfera, onde as condições físicas são substancialmente distintas.

O contexto climático que torna a descoberta relevante está ligado às propriedades do metano como gás de efeito estufa. Em um período de 20 anos, o metano tem capacidade de aquecer o planeta cerca de 80 vezes mais do que o dióxido de carbono, sendo atualmente responsável por aproximadamente um terço do aquecimento global. Ao contrário do CO₂, porém, o metano se decompõe na atmosfera em cerca de uma década, o que significa que reduções nas suas emissões podem produzir efeitos climáticos mensuráveis em prazo relativamente curto. Por essa razão, cientistas da área climática frequentemente descrevem o controle do metano como um “freio de emergência” para o aquecimento global.

Os pesquisadores avaliam que a compreensão desse mecanismo natural pode orientar o desenvolvimento de métodos artificiais para a remoção de metano diretamente na atmosfera, abrindo uma linha de investigação com potencial aplicação no combate às mudanças climáticas.

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