
A Engenharia brasileira vive um momento de expansão, mas enfrenta o desafio de se tornar mais diversa e conectada com a realidade do mercado. Para Suzana Kahn, diretora da Coppe/UFRJ e ex-secretária nacional de Mudanças Climáticas, o segredo para o futuro da área reside em uma mudança de perspectiva: “É possível deixar a Engenharia mais atraente”, afirma a cientista, que defende uma formação menos rígida e mais voltada para soluções práticas que impactem a sociedade. Ela teve perfil publicado no jornal O Globo no domingo passado.
Formada há mais de 40 anos em Engenharia Mecânica pela Uerj, com mestrado em Planejamento Energético e doutorado em Engenharia de produção pela Coppe/ UFRJ, Suzana Kahn será uma das painelistas do CREA AQUI, que vai acontecer no dia 19 de março no Armazém 3 do Píer Mauá. As inscrições estão abertas.
À frente dessa transformação está o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), a unidade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que Suzana lidera há três anos. Fundada há mais de 60 anos, a Coppe é o maior centro de ensino e pesquisa em Engenharia da América Latina. O instituto é um pilar da inovação nacional, com mais de 400 projetos desenvolvidos em parceria com 130 empresas, movimentando cerca de R$ 1,4 bilhão. Sua atuação abrange desde a exploração de petróleo em águas profundas até o desenvolvimento de tecnologias de energia limpa e inteligência artificial.
Para a diretora, a escolha pela Engenharia foi estratégica, movida pelo desejo de independência financeira em uma época de pouca abertura para o público feminino. Ela recorda episódios de preconceito, como quando teve que amamentar o filho durante uma prova após o professor se recusar a deixá-la sair da sala.
“Na juventude, eu não tinha vocação para a Engenharia. Gostava de História. Foi uma escolha pela empregabilidade. Meu foco era a independência financeira. “Que profissão eu vou escolher para ter autonomia? Sou de família de classe média, de Ipanema, não sofria. Tive privilégios. Mas é importante para a mulher não depender financeiramente do marido ou do namorado”, afirma a cientista, ressaltando que a presença feminina é fundamental para humanizar e diversificar as soluções tecnológicas.
“Ainda há muito o que melhorar; um dos caminhos é ampliar o acesso à ciência”, observa.
Diversidade e Representatividade
A trajetória de Suzana Kahn é, por si só, um símbolo de resistência e evolução. Quando cursou Engenharia mecânica nos anos 1980, ela era uma das únicas três mulheres em uma sala com 22 homens. Hoje, embora o cenário tenha melhorado, os números ainda revelam um abismo: apenas 20% dos profissionais da área no Brasil são mulheres.
Suzana foi subsecretária de Economia Verde e superintendente de Clima e Mercado de Carbono da Secretaria Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro, consultora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), membro do Comitê Executivo da iniciativa Global Energy Assessment (GEA), secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente entre 2008 e 2010, uma das idealizadoras do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, onde é presidente do Comitê Científico, colaborou na elaboração do Primeiro Relatório de Avaliação Nacional sobre Mudanças Climáticas.
Participou também dos trabalhos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que conduziram à publicação do seu Quarto e Quinto Relatório, sendo recipiente, junto com a equipe do IPCC, do Prêmio Nobel da Paz, e desde 2008 uma das vice-presidentes do Grupo de Trabalho III. É também professora titular da UFRJ.
Pontes entre Academia e Mercado
Um dos pilares da gestão de Suzana na Coppe é a quebra de muros entre a universidade e o setor privado. Ela defende que a academia não deve ser um ambiente isolado, mas um laboratório vivo de soluções. Entre as iniciativas de destaque sob sua gestão estão o hub de Inteligência Artificial e parcerias para o desenvolvimento de equipamentos médicos de alta precisão.
Para tornar o curso mais atraente aos jovens, Suzana sugere um “cardápio de investimentos” acadêmicos, onde o aluno compreenda a aplicação real do que estuda.
“Muitas vezes o aluno não tem noção da aplicabilidade do que é estudado. É possível deixar a Engenharia mais atraente ao mostrar que ela é o caminho para resolver problemas globais, como a crise climática”, pontua.
Sob o comando de Suzana e seu vice, Marcello Campos, a Coppe registrou um aumento de 25% no número de alunos no primeiro quadrimestre de 2025 em comparação ao ano anterior. O objetivo é claro: manter a excelência acadêmica e a produção científica de ponta, enquanto se democratiza o acesso e se diversifica as fontes de recursos, garantindo que a Engenharia continue sendo o motor do desenvolvimento sustentável do país.