Com patrocínio do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (CREA-RJ), o Centro Cultural da Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio (SEAERJ) realizou no Dia da Engenharia, 10 de de abril, um seminário que celebrou o centenário de nascimento do engenheiro Raymundo de Paula Soares (1926-1992), profissional que liderou a execução de obras essenciais para a transformação urbana e de grande impacto na infraestrutura do Rio de Janeiro, entre 1966 e 1971.
O seminário, realizado na sede da SEAERJ, na Glória, teve o título de “Raymundo de Paula Soares – Engenharia Pública e reconfiguração urbana da Cidade do Rio de Janeiro”. Secretário de Obras e presidente da extinta Superintendência de Urbanização e Saneamento (SURSAN) no Governo Negrão de Lima, Paula Soares esteve à frente de grandes obras públicas, como o alargamento da Praia de Copacabana, o interceptor oceânico da Zona Sul e a implantação de eixos rodoviários que transformaram a mobilidade urbana do Rio.
“Paula Soares deixou uma marca única e inconfundível em toda a cidade do Rio de Janeiro, seja na urbanização, na drenagem, no saneamento, nas encostas, nas vias públicas e no transporte de massa. Seu nome está gravado em marcos urbanos fundamentais, como o alargamento da Praia de Copacabana e da Avenida Atlântica; a implantação do Interceptor Oceânico da Zona Sul e a expansão da Autoestrada Lagoa-Barra; a abertura do desenvolvimento da Baixada de Jacarepaguá; a conclusão do Túnel Rebouças e a integração de bairros por viadutos e túneis; e obras cruciais de contenção de encostas e recuperação após os temporais de 1966 e 1967”, afirmou o presidente do CREA-RJ, engenheiro Luiz Carneiro de Oliveira, para quem “o resgate da memória de Paula Soares é um é um ato de resistência e esperança, que reafirma o valor da engenharia para o futuro do Brasil”.

A presidente da SEAERJ, a arquiteta e urbanista Marguerita Rose Abdalla Gomes, destacou o caráter precursor da obra de Raymundo Paula Soares.
“Ele era um visionário e a sua marca, pensando na parte estruturante da cidade, é realmente fascinante, porque ela está aí presente mais de 50 anos depois. Então, para nós, da engenharia e arquitetura pública, ele é um grande motivo de orgulho por ter participado de uma época de ouro da nossa área de engenharia e arquitetura. É importante ressaltarmos que tudo isso só pôde acontecer porque foi feito com o apoio de servidores da máquina pública, e que hoje estão sendo relegados, terceirizados, e, com isso, essa memória técnica está se perdendo”, afirmou a presidente da SEAERJ.

Para Marguerita Abdalla, “a máquina pública não pode jamais prescindir da engenharia e arquitetura públicas porque sem elas não há qualquer possibilidade de desenvolvimento”. A presidente da SEAERJ destacou que o grande diferencial da época de Paula Soares é que “se pensava muito mais no coletivo, no bem-estar da população como um todo” e o que se vê hoje, segundo ela, “são projetos soltos, com marcas, vamos dizer assim, de profissionais, mas sem estar inserido de uma forma mais impactante na comunidade”.
O seminário não deixou dúvidas de que a ação de Raymundo de Paula Soares mantinha “a ideia de crescimento da cidade de forma articulada”, como lembrou a professora e pesquisadora Margareth Pereira, coordenadora do Laboratório de Estudos Urbanos da UFRJ.
“O legado de Paula Soares vai além do município, sendo a origem da ideia de um Rio Metropolitano. O sucesso de suas obras se deu principalmente pela multiplicidade de saberes (topografia, cálculo, urbanismo) e pelo foco no interesse público”, disse a professora Margareth, que manifestou alegria por conhecer testemunhas do legado de Paula Soares (“nesses depoimentos, conseguimos até visualizar o local de trabalho desses engenheiros e arquitetos, que trabalhavam com 30 pranchetas”, lembrou).
Além de Margareth, dos presidentes do CREA-RJ e da SEAERJ, também compuseram a mesa do seminário a presidente e o vice-presidente do Centro Cultural da SEAERJ, respectivamente Isabel Tostes e Luiz Edmundo Costa Leite; profissionais que conviveram com Paula Soares, como Maria de Lourdes, Sonia Mattos e Francisco Filardi (Conselheiro da SEAERJ); e a irmã de Raymundo, Nair de Paula Soares. Sonia Mattos e Maria de Lourdes compartilharam a experiência de trabalhar na SURSAN como jovens profissionais. Ambas descreveram Paula Soares como um líder acessível, que discutia projetos diretamente nas pranchetas com a equipe e respeitava os técnicos recém-formados.
Diretor de obras do Departamento de Estradas de Rodagem do antigo Estado da Guanabara, entre 1966 e 1971, o engenheiro Francisco Filardi, apresentou a trajetória de Raymundo de Paula Soares sob a égide dos melhores padrões técnicos da engenharia. Filardi apresentou detalhes técnicos e históricos fundamentais sobre a atuação de Paula Soares, destacando três eixos principais: o saneamento de Copacabana, a conexão viária da cidade e a expansão para a Barra da Tijuca.
“A obra de alargamento da Praia de Copacabana (que aumentou a largura da faixa de areia, de 21 para 73 metros) foi testada em um modelo reduzido no Laboratório Civil de Lisboa. Inicialmente, a areia não se sustentava no modelo, até que um técnico sugeriu incluir as Ilhas Cagarras e as formações rochosas submersas na simulação, o que estabilizou a praia. Portanto, se algum dia sumirem as Cagarras, Copacabana também pode desaparecer”, brincou o engenheiro.

Filardi lembrou que o saneamento de Copacabana significou o fim das chamadas “línguas negras”, provocadas pelas saídas de esgoto que cruzavam a areia em cada rua de Copacabana. A solução definitiva foi o Interceptor Oceânico, uma galeria subterrânea de proporções monumentais (equivalente a um caminhão e um Fusca lado a lado) que transporta os dejetos até o Emissário de Ipanema, a sete quilômetros da costa.
O engenheiro Filardi explicou também que Paula Soares anteviu a necessidade de romper o bloqueio dos maciços da Carioca e da Tijuca, para criar uma ligação entre as zonas norte e sul da cidade. Isso resultou em eixos como o Túnel Rebouças, o Elevado Paulo de Frontin e o Viaduto de São Sebastião.
O engenheiro que foi testemunha ocular da época de Paula Soares destacou a importância da expansão da cidade para a Barra da Tijuca (“foi Paula Soares quem convenceu o urbanista Lúcio Costa a desenhar o plano da Barra”, lembrou), numa época em que a região era ocupada por dunas e pântanos.
“Paula Soares liderou um time de mais de 400 engenheiros concursados, que eram bem remunerados e possuíam autonomia técnica para decidir os rumos da cidade sem as pressões políticas comuns nos dias atuais”, afirma Filardi, que é um crítico da terceirização de obras públicas, pois, segundo ele, “isso apaga a memória da engenharia, pois, ao fim de um contrato privado, os registros e a continuidade do conhecimento se perdem, diferentemente do que ocorre com o corpo técnico do Estado”.
A designer Nair de Paula Soares apresentou um perfil humano do irmão, definindo-o como “audacioso, inquieto e afetuoso”. Mencionou a famosa foto em que Paula Soares aparece no helicóptero sobrevoando as áreas, “onde fiscalizava pessoalmente as obras antes de ir para o gabinete.” E encerrou sua fala com uma frase do urbanista Lúcio Costa: “Tudo que Paula Soares fazia era com a cabeça e com o coração”. Um dos netos de Paula Soares, Gabriel, que é estudante de Educação Física, de 23 anos, se uniu ao grupo na visita à exposição sobre o legado do avô, que agora deverá ir para a Câmara Municipal do Rio.

Paula Soares morreu aos 66 anos de idade, em 1992, vítima de um câncer de garganta. Mas seu legado estará para sempre na história da engenharia e arquitetura públicas do Rio de Janeiro.