
Um espaço chamou a atenção especial de quem circulou pelo Armazém 3 do Píer Mauá durante a segunda edição do CREA AQUI. Trata-se do estande do Programa Mulher. Nele, os visitantes podiam ver, em destaque, o perfil de cinco mulheres que, como diz o título na parede que carregava as suas histórias: são mulheres que inspiram.
A trajetória de vida dessas profissionais foi revelada pelo concurso “Mulheres que Inspiram”, promovido pelo próprio Programa Mulher. As cinco profissionais foram escolhidas pelas suas histórias que contribuíram significativamente para as Engenharias, Agronomia e Geociências, promovendo inspiração e enaltecimento da presença feminina nessas áreas.
Foram dois meses de inscrições abertas onde o comitê gestor do programa definiu as vencedoras com base em critérios de avaliação e pontuação pré-definidos. O concurso englobou mulheres com mais de 18 anos, que fazem parte do sistema CONFEA/CREA, que estão com a anuidade em dia e são moradoras do estado do Rio de Janeiro.

A engenheira mecânica Rachel Loh é pioneira no automobilismo brasileiro, primeira engenheira de motorsport do país e da StockCar, com mais de 20 anos de carreira e atuação pela inclusão feminina no setor. Além de uma foto na parede, a dona desse currículo brilhante fez presença no estande do programa e distribuiu simpatia a todos que se interessaram pela sua história inspiradora.
“Com todos que converso, eu sugiro acreditar e entender que o propósito vem depois. As pessoas têm a tendência de querer saber o que fazer desde o início e é normal não saber. Eu sou filha de engenheiro e, apesar da influência que recebia em casa, não sabia o que queria fazer. Tanto que, na época da faculdade, em cada unidade de ensino eu me inscrevi para cursar uma engenharia diferente. Como eu passei para a Universidade Federal Fluminense (UFF), lá eu havia me inscrito para cursar engenharia mecânica”, revelou Rachel sobre a sua escolha nada segura.

Ela disse que encontrou um ambiente muito hostil com mulheres no meio acadêmico, mas que nem por isso se deixou abater.
“Logo eu fui chamada para ser piloto de teste de um protótipo de carro de corrida que os meninos que estavam em períodos mais à frente do meu estavam desenvolvendo. Mas eu sou consciente de que a minha escolha não ocorreu devido a eles reconhecerem a minha capacidade. Eu fui chamada pelo meu porte físico, eu era mais leve e eles ganharam menos 20Kg no carro, o que fez toda diferença. Por ser uma menina maluquinha que aceitava desafios, eu me tornei a primeira mulher piloto e a primeira mulher capitã da equipe”, resumiu.
Outra inspiração de profissional feminina é a engenheira ambiental Viviane Japiassú. Ela é doutora em ciências ambientais, professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e da Universidade Veiga de Almeida (UVA) com atuação em educação climática e projetos socioambientais que já impactam mais de 30 mil estudantes. Viviane dividiu o reconhecimento da sua história com os seus familiares, que foram até o estande do Programa Mulher ver a homenagem feita a ela.
“Quando eu me deparo com a minha história sendo contada ao lado de outras mulheres com trajetórias tão inspiradoras, eu só posso acreditar que estou no caminho certo. E eu me preocupo em inspirar outras meninas. Desde 2018 eu incentivo estudantes do ensino fundamental e médio a se lançarem na iniciação científica na área tecnológica. Eu acredito que nos conectar com outras mulheres nos dá força. E se eu posso, porque eu não vou abrir a mente dessas estudantes para que elas vejam outras possibilidades para as suas vidas? ”, questiona Viviane.

Uma luta que conecta histórias
Já a engenheira eletrônica Ana Paula Bernardes Araújo, apesar de um currículo invejável – com mais de 25 anos de atuação no setor naval militar tendo participado do Programa de Desenvolvimento de Submarinos Institucional (Prosub) e única brasileira a embarcar em determinada classe de submarinos, onde acumulou 1.800 horas de imersão, – se disse surpresa com a homenagem do Programa Mulher do CREA-RJ.
“Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Profissionais da minha profissão estão conhecendo a minha história e, alguns, estão me tendo como referência. Eu sei que sou uma profissional diferenciada na área naval na América, mas esse reconhecimento do Conselho é muito significativo para mim. Eu espero que esse destaque que estão dando à minha história sirva de incentivo à essa gurizada que está vindo aí para renovar a Engenharia. Eu queria muito inspirar mais meninas negras a se lançarem no mercado para revelar todo o seu potencial”, contou Ana, consciente de sua representatividade.

Mais experiente entre as homenageadas, a engenheira eletricista Olga Simbalista afirmou estar orgulhosa com o destaque dado a ela pelo CREA-RJ. Ela é mestre em engenharia nuclear pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com carreira de destaque no setor energético e nuclear, além de atuação relevante na promoção da presença feminina na ciência e na tecnologia. E esse trabalho de empoderamento feminino ela revelou ter aprendido em casa.
“Eu devo à minha mãe todo o incentivo que ela me deu para que eu pudesse me dedicar aos estudos. Apesar dela não ter nenhuma formação, pelo contrário, ela mal tinha o ginásio completo (até 1975 o ginásio constituía o estágio educacional que se seguia ao ensino primário e que antecedia o ensino médio), porém ela sempre lutou para me dar as condições para que eu pudesse levar os meus estudos adiante”, reconhece Olga.

Da mãe, Olga aprendeu o exemplo de fazer diferença na vida de outras mulheres. E ela acredita que esse foi o principal trabalho que resultou no reconhecimento chamado por ela de ‘o oscar da Engenharia’.
“A honra que eu tenho por isso é tamanha, eu me sinto no tapete vermelho. Eu aprendi, em uma experiência que tive no Banco da Mulher do Brasil, a ensinar finanças para mulheres de baixa renda. Na oportunidade, elas eram ensinadas a valorar as suas produções e a obter renda com o trabalho que desenvolviam. Essa experiência me fez olhar para o trabalho feminino com mais atenção. E no mundo fascinante da Engenharia, o trabalho feminino ganha destaque porque nós somos ensinadas, desde os afazeres domésticos, a respeitar o processo de que tudo deve ser feito respeitando a ordem do princípio, meio e fim. E esse é o nosso diferencial”, revela orgulhosa.
Bebendo de tanta sabedoria e inspiração, a estudante de engenharia ambiental e sanitária Esthefani Chaves contou que ter essas mulheres como exemplos é um incentivo para seguir na luta que, segundo ela, ainda precisa ser travada contra o preconceito de gênero.
“Historicamente, as mulheres são condicionadas a escolherem profissões consideradas mais delicadas, de cuidado, que exigem menos força. O ambiente da Engenharia ainda é hostil a nós. A luta pelo reconhecimento e as dificuldades para vencer o preconceito está presente na história de todas as mulheres que ganham destaque nessa profissão”, concluiu a estudante.