Enaldo Cravo Peixoto: o engenheiro visionário da Guanabara

Nascido em Penedo (Alagoas) em 1920 e radicado no Rio de Janeiro a partir dos anos 1940, Enaldo Cravo Peixoto foi uma figura central na engenharia sanitária brasileira, deixando um legado definitivo no desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro, especialmente no antigo Estado da Guanabara, que forma o atual Estado do Rio de Janeiro. Sua atuação foi marcada por uma visão inovadora e um compromisso com a melhoria da infraestrutura e da qualidade de vida da população.

Cravo Peixoto veio para o Rio de Janeiro a fim de estudar engenharia na antiga Universidade do Brasil, atual Escola Politécnica da UFRJ, onde se formou em 1942. Na época, o então Distrito Federal era administrado pelo prefeito nomeado Ângelo Mendes de Moraes que, entre outras grandes obras, construiu o Estádio Mário Filho, o Maracanã, na época o maior do mundo.

“Logo depois de formado, Enaldo começou a trabalhar em 1945 na City, concessionária do sistema de esgotos desde a época de Dom Pedro II, em 1853. Com o fim da concessão, Enaldo participa da transição e atua no Departamento de Água e Esgoto do Distrito Federal. Ele já tinha um grande plano de saneamento para o Rio”, lembra Núbia Melhem, curadora da exposição inédita sobre o arquivo do engenheiro Enaldo Cravo Peixoto, que será aberta nesta sexta-feira, dia 23 de maio, no Centro Cultural da SEAERJ (Sociedade de Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro), em comemoração aos 90 anos da entidade. 

A trajetória de Enaldo Cravo Peixoto ganhou destaque na gestão do governador Carlos Lacerda, entre 1960 e 1965. Ele foi secretário de Viação e Obras do antigo Estado da Guanabara e depois presidente da Superintendência de Urbanização e Saneamento (Sursan).

Túnel Rebouças depois de inaugurado em 1967. Agência Globo. Foto: Acervo do Centro Cultural da Seaerj

Nesse período, Enaldo esteve à frente de obras de grande porte que transformaram a paisagem carioca e trouxeram soluções essenciais para os desafios urbanos da época. Dentre as iniciativas mais notáveis, destacam-se a Adutora do Guandu, um projeto fundamental para o abastecimento de água da cidade, inaugurado em 1955; a conclusão do Túnel Santa Bárbara, que revolucionou o trânsito e a conexão entre as zonas Norte e Sul, construído em 1963; a perfuração do Túnel Rebouças; e o Aterro e Parque do Flamengo, uma obra de engenharia audaciosa que criou uma nova área de lazer e beleza natural para a cidade, de 1965. O aterro é considerado um dos mais expressivos projetos de urbanização paisagística do Brasil. Essas obras são a certificação de sua capacidade técnica e de sua visão de futuro.

Obras do Aterro do Flamengo em 1960. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Foto: Acervo do Centro Cultural da Seaerj
Com Lota Macedo Soares, que coordenou o projeto do Aterro, e o governador Carlos Lacerda, na inauguração da pista de aeromodelismo do Parque do Flamengo

Em 1982, após nova ampliação, o Guandu passou a ser o maior parque de produção de água da América Latina. Hoje, o Sistema Guandu é responsável pelo abastecimento de 80% da água consumida na Região Metropolitana do Rio, que tem cerca de 11 milhões de habitantes

Enaldo com uma das bombas adquiridas nos Estados Unidos para o Guandu

Além de sua atuação direta em projetos de engenharia, Enaldo Cravo Peixoto foi um grande articulador e visionário institucional. A convite de Carlos Lacerda, em 1960, ele ingressou na Sursan, órgão que se tornou crucial para o planejamento e a execução de políticas públicas na área de saneamento e urbanismo no estado da Guanabara. Sua liderança na Sursan permitiu a implementação de uma abordagem mais integrada e eficiente para os desafios da cidade.

Enaldo foi fundamental também para a criação e desenvolvimento de projetos de saneamento, como o Interceptor Oceânico, de 1971, e o Emissário Submarino de Esgotos. 

A influência de Enaldo se estendeu também ao âmbito associativo, sendo um dos fundadores da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES). A criação da ABES foi um marco para a engenharia sanitária no Brasil, consolidando um espaço para a troca de conhecimentos, o aprimoramento profissional e a defesa dos interesses da área. Enaldo Cravo Peixoto, com sua participação, contribuiu significativamente para a formação de uma comunidade profissional engajada e para a elevação dos padrões técnicos no setor.

O impacto de Enaldo Cravo Peixoto transcendeu as décadas. Suas obras continuam a beneficiar milhões de pessoas, e as instituições que ajudou a fundar permanecem relevantes no cenário da engenharia brasileira. Ele é lembrado como um engenheiro sanitarista à frente de seu tempo, um gestor público exemplar e um visionário que dedicou sua vida a construir um futuro melhor para o Rio de Janeiro e para o Brasil.

Após sua morte, em 1985, Enaldo Cravo Peixoto deu nome a uma rua de 353 metros de extensão em frente ao Shopping Tijuca, naquele bairro da Zona Norte do Rio, na gestão do prefeito Marcello Alencar. Em 1997, na gestão do prefeito César Maia, Enaldo deu nome também a um túnel de 153 metros de extensão na Linha Amarela. 

ESTA MATÉRIA INAUGURA A SÉRIE “O ENGENHEIRO QUE VIROU RUA”, QUE VAI APRESENTAR A BIOGRAFIA DE PROFISSIONAIS DA ENGENHARIA QUE DERAM NOME A LOGRADOUROS PÚBLICOS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. 

Confira a exposição sobre Enaldo Cravo Peixoto na SEAERJ
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