Único passageiro sobrevivente do Voo Varig 820, Ricardo Trajano inspira profissionais do Sistema na 80ª SOEA

Durante a 80ª SOEA, o engenheiro Ricardo Trajano, único passageiro sobrevivente do trágico Voo 820 da Varig, ocorrido em 11 de julho de 1973, compartilhou uma história de superação e perseverança com os engenheiros, agrônomos e geocientistas presentes.

Ele tinha 21 anos, estudava engenharia na Universidade Católica de Petrópolis e, baixista, sonhava em conhecer a terra do rock’n roll: Londres. “Era minha primeira viagem para o exterior, era a década de 1970, quando era um evento viajar, os caras iam de terno e gravata, era muito caro”, lembra.

Ricardo economizou seu “rico dinheirinho”, como disse, entrou na agência Varig de Copacabana e comprou seu sonho. Partiria do Galeão às 23h, em um Boeing 707. Chegou às 17h para ser o primeiro a escolher o lugar. Pegou a traseira do avião, pois diziam ser o lugar mais seguro.

A tragédia

O Voo 820 da Varig fazia a rota do Rio de Janeiro a Londres com escala em Paris, quando, pouco antes do pouso na capital francesa, um incêndio na parte traseira da aeronave gerou fumaça tóxica, levando à tragédia com 123 mortes entre passageiros e tripulação. 

Dentre os 117 passageiros, Ricardo Trajano foi o único sobrevivente, escapando da morte por uma decisão instintiva: ele levantou-se do seu assento e foi até próximo à cabine, onde a densidade da fumaça era menor — contrariando orientações da tripulação. 

Inicialmente, Trajano ficou 30 horas em coma. Seu corpo foi reconhecido como sendo de um comissário que havia falecido, e o hospital informou sua família sobre sua morte. Seu pai encomendou seu sepultamento, a Universidade fez comunicado oficial e sua mãe dizia: “meu filho não morreu!”. 

No hospital

Quando ele saiu do coma, a primeira coisa que pensou foi: “não estou em Londres”. “Aos poucos você vai se lembrando de pedaços das coisas, como quebra-cabeça”, comentou. Então, ele pediu papel e, com muita dificuldade, escreveu: “Meu nome é Ricardo Trajano”, papel que guarda até hoje. “Aí o hospital ligou para minha casa para informar que eu estava vivo. O velório virou uma festa”,lembra. Ricardo ficou dois meses internado em uma UTI em Paris, e outro mês no Rio de Janeiro, tratando queimaduras graves nas costas.

Esse episódio o marcou profundamente, e ao longo da vida ele se tornou palestrante, levando sua experiência de resiliência, esperança e responsabilidade pessoal para públicos diversos. 

Durante sua participação na SOEA, Ricardo Trajano foi convidado a contar sua história de superação para os profissionais que atuam no Sistema Confea/CREA e Mútua. Sua presença emocionou muitos dos presentes, pela simbologia da vida diante de adversidades extremas e a lição implícita de disciplina, foco, responsabilidade, perseverança e coragem.

“Uma coisa que aprendi passando tanto tempo em uma UTI, vendo o trabalho dos médicos, das enfermeiras, daquela equipe complexa, e o esforço dos próprios pacientes, é que ninguém faz nada sozinho, e a engenharia sabe muito bem disso. E precisa fazer com sintonia, sinergia e simpatia”, disse, entre os diversos ensinamentos de vida que compartilhou.

Depois de curado, Trajano ganhou da Varig passagens de primeira classe para ir conhecer a tão sonhada Londres. “As pessoas perguntam se eu não tenho medo de avião, mas a verdade é que há um acidente a cada três milhões de voos. Precisa ter 8100 anos para que aconteça um acidente a uma pessoa. Calhou de acontecer para mim aquela vez. Eu sinto gratidão. Um amigo me diz: ‘aquela coisa que você sentiu te segurando não era a morte te abraçando, era a vida te protegendo’. Não acho que a gente tem que se vitimizar”, e tocou no violão um trecho da Balada do Louco, dos Mutantes.

Na ocasião, ele enfatizou pontos centrais:

Valorização da vida e responsabilidade ética — Trajano lembrou que, em momentos críticos, as escolhas feitas podem alterar destinos. Ele citou que “sobreviver foi um chamado à responsabilidade” — traçando relação com a missão dos engenheiros e agrônomos de projetar com segurança, humanismo e respeito à sociedade.
Superação e propósito — Ele convidou os profissionais a enxergarem nos obstáculos oportunidades de crescimento. Disse que “quem enfrenta o impossível não teme o futuro”, e que cada projeto, cada obra, carrega em si uma potencial transformação social.
Compromisso com a ética e a proteção da sociedade — Trajano enfatizou que o dever dos profissionais não é apenas técnico, mas moral: “Não basta construir, é preciso fazer com segurança, sustentabilidade e em benefício coletivo.”
 Inspirar com exemplo pessoal — Ele compartilhou breves fragmentos de sua trajetória: os anos de recuperação física, os desafios emocionais, os momentos em que foi dado como morto — e como persistiu. Por meio de seu depoimento, ele falou da importância de manter integridade e esperança mesmo diante da tragédia.

Impacto e repercussão

Aos 73 anos de idade, Ricardo vive hoje em Belo Horizonte. Após o acidente, voltou a viajar de avião, conheceu Londres, formou-se em Engenharia, teve duas filhas — Júlia e Marina — e passou a compartilhar sua história pelo Brasil, inspirando outras pessoas com sua trajetória de superação.

No contexto da SOEA — que reúne milhares de estudantes, profissionais e lideranças do Sistema — sua participação reforçou a conexão entre experiência humana e compromisso profissional. Foi uma palestra emocionante e inspiradora.

*Com informações do Confea

Assista à palestra na íntegra (a partir da minutagem 1:39:03)

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