Gustavo Tannure, CEO da EZVolt, fala sobre a carência de eletropostos públicos no Brasil e esclarece dúvidas sobre carregamento

CEO e fundador da EZVolt, empresa líder do mercado de eletromobilidade no Brasil, o engenheiro e empreendedor Gustavo Tannure faz uma análise do mercado no país. Fundada em 2019, a EZVolt hoje já está em 20 estados do Brasil, possui 1800 carregadores conectados; já realizou mais de 720 mil recargas; tem cerca de 121 mil clientes cadastrados nos aplicativos e a energia transacionada nas plataformas já ultrapassa 45 Gwh.

Tannure inaugurou o primeiro eletroposto público do Brasil em fevereiro de 2025, na Barra da Tijuca, na Avenida das Américas (altura do nº 6501), como parte do projeto “Eletroposto Carioca” da Prefeitura, focando em mobilidade sustentável e recarga rápida para carros elétricos. 

De acordo com dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico – ABVE, o Brasil conta atualmente com cerca de 16.880 pontos públicos e semipúblicos de recarga para veículos elétricos. Desse total, 3.855 são eletropostos de recarga rápida (DC), fundamentais para viagens rodoviárias e para o uso dinâmico no dia a dia, enquanto 13.025 correspondem a pontos de recarga lenta. No estado do Rio de Janeiro, há 1.606 eletropostos em operação, sendo 1.330 de recarga lenta e 276 de recarga rápida. Já no município do Rio de Janeiro, o total chega a 963 eletropostos, dos quais 836 são de recarga lenta e 127 de recarga rápida.  Sabendo que, somente em 2025 foram vendidos 223.912 veículos eletrificados no país, somados à frota já existente, o número de eletropostos está muito aquém da demanda.

Tannure posa no primeiro eletoposto público do Brasil, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro

Entrevista / Gustavo Tannure

Como foi a criação da EZVolt?

A EZVolt é uma empresa carioca nascida em 2019 e que tem por objeto a recarga de veículos elétricos. A gente trabalha fazendo a recarga em nossa rede de eletropostos, que guarda uma similaridade com postos de combustível. O que a gente faz hoje é construir a infraestrutura de postos, levar os carregadores no ambiente de recarga, que pode ser tanto um ambiente público quanto um ambiente semi-público ou privado, como condomínios residenciais, comerciais. E dentro desses locais, através dos nossos carregadores, carregamos os veículos elétricos.

Como você analisa o mercado da eletromobilidade hoje?

Desde 2019 a gente foi acompanhando o crescimento do mercado. Sempre existiu uma grande dúvida se o mais adequado seria construir uma infraestrutura de recarga para possibilitar a chegada dos carros ou se o melhor era aguardar uma demanda de veículos elétricos para depois ir implantando a infraestrutura de recarga. Hoje eu já vejo que a história mudou por conta da chegada das fabricantes chinesas, que têm inundado o mercado com carros elétricos.

Existe uma carência de eletropostos públicos no Brasil?

Sim!  Hoje o que a gente já acompanha no Brasil é realmente uma carência enorme para pontos de recarga públicos. Já existem mais carros do que a rede de carregadores pode suprir. Então, esse crescimento é bom porque possibilita investimentos privados nessa rede de transporte. 

Essa carência impacta de alguma forma a venda de carros elétricos no país?

A gente sabe que hoje a questão de recarga e carregadores é a maior impedimento para a transição energética dos veículos. Ou seja, o cliente, ao comprar um carro elétrico, a primeira coisa que ele pensa é onde vai carregar o carro. E realmente isso é complexo. Ainda é um tema que está sendo equacionado através dos investimentos de empresas como as nossas, que levam os carregadores para onde os motoristas mais precisam carregar.

E ainda tem a questão da potência dos carregadores. Os eletropostos com carregadores mais potentes são em muito menor número.

Hoje existem muitas dúvidas quanto aos carregadores, aos tipos de carregadores, aos modelos de recarga, mas basicamente a gente tem o modelo de recarga em si, a corrente alternada ou a DC, corrente contínua, e a diferença deles é a velocidade e a potência. Tem os carregadores de corrente alternada e os carregadores DC de corrente contínua em carregadores. O AC chega à potência de até 22 quilowatts e nos carregadores DC a gente alcança corrente com  potência de até 180 quilowatts hoje. Mas isso tem aumentado. E quanto maior a potência do carregador, menor o tempo de recarga. Mas existem também impactos. Para você ter um carregador com uma potência grande, você precisa de uma infraestrutura elétrica muito maior do que para um carregador de 22 quilowatts, por exemplo.

Como o cliente sabe qual é o melhor carregador para ele?

Tudo é uma questão de achar a melhor solução de recarga para aquele cenário. Ou seja, se você tem um carro que vai carregar durante a noite enquanto a pessoa está em casa dormindo, ou se você vai carregar aquele carro durante o dia, enquanto a pessoa está no trabalho. Vai ficar lá oito, dez horas no trabalho ou dez horas em casa dormindo. Você tem uma flexibilidade, consegue carregar o carro num período muito maior. Você não precisa carregar em duas, três, quatro horas. Você pode carregar o carro em 6 horas ao mesmo tempo. Se você tem um veículo de frota ou um motorista de aplicativo de táxi que está carregando o carro dele durante o expediente durante o horário de trabalho dele, o interessante é que ele carregue muito rápido, então, a gente tem essas soluções que atendem aos dois tipos de público. E você sabendo qual a solução você tem que dar, você vai buscar atender o cliente com uma menor potência, o maior tempo de recarga ou com uma maior potência, um menor tempo de recarga.

Que tipos de eletropostos existem?

Além da potência dos carregadores, a gente divide a recarga com uma recarga pública e a outra semi pública ou privada, que é uma recarga chamada pública e onde está em locais de livre acesso para qualquer um. A gente pode botar eletropostos que são abertos ou em estacionamento de algum shopping ou algum ponto comercial aberto. Restaurante.  Aquela seria uma recarga pública na qual todos têm acesso e a outra recarga em ponto semi públicos seriam, por exemplo, um condomínio residencial ou um condomínio comercial onde somente pessoas autorizadas, o morador, a pessoa que trabalha tem acesso e ali. A gente abre também dois universos e essa recarga pública tem de carros de frota. Atende o motorista de aplicativo de táxi, atende, por exemplo, uma pessoa comum como nós. 

Hoje, os donos de carros elétricos têm viagens de longa distância por medo de não encontrar posto de recarga.

Durante uma viagem intermunicipal, você vai ter que parar num posto, por exemplo, ou no estacionamento de um restaurante. Enfim, você consegue com o carregador rápido adequar a sua viagem. Hoje existem carregadores. Por exemplo, na Via Dutra você viaja de São Paulo para o Rio e programa uma parada no meio do caminho. Em 40 minutos seu carro vai estar 100% carregado e é o tempo que você ir ao restaurante, no banheiro, então as viagens já ficaram muito mais fáceis de serem feitas com esses carregadores públicos nas estradas.

Como está hoje o comparativo de preços entre o carro elétrico e à combustão? 

O mercado dos veículos elétricos da eletromobilidade vem avolumando muito com o passar dos anos. E essa evolução está cada vez mais rápida. Hoje, a autonomia dos carros tem aumentado bastante, o custo da bateria tem diminuído muito também. Então esses carros hoje já tem um custo de aquisição bem próximo dos carros à combustão. Um carro elétrico pode ser 20% mais caro do que um carro a combustão, porém, com o uso que você dá para ele, se você tiver um uso intenso, ele acaba se tornando mais barato ao longo da sua vida.

Como são os custos de manutenção de um carro elétrico?

Se você tem um custo de aquisição maior, mas um custo de operação menor, ao longo de alguns anos você já consegue pagar aquela diferença maior. E aí, quais seriam esses custos? Um veículo elétrico hoje não tem manutenção praticamente nenhuma comparada com um veículo a combustão. Então a gente não tem troca de velas, troca de correias, troca de óleo, filtros de ar, filtro de combustível. Nada disso é feito em um carro elétrico. Ele tem muito menos partes móveis no motor e isso acaba contribuindo muito na manutenção, sem contar com o custo da energia elétrica, comparado com o custo do combustível fóssil, com a gasolina, com diesel é muito menor o custo da energia e aquilo acaba contribuindo ao longo da vida útil do carro. Ele já se torna bem mais barato do que o carro a combustão.

Um carro elétrico pode pegar fogo durante a recarga?

Por ser uma tecnologia muito nova, ainda existem muitas dúvidas em relação à recarga dos carros e aos riscos associados. A gente ouve falar muito de incêndios e aquilo tudo vai depender de uma fiscalização mais efetiva. A gente entende o papel do CREA de fiscalizar, orientar a prática profissional. A gente aqui na iniciativa privada, nas empresas, fico muito feliz de receber visitas aqui e de ver que o CREA, através da Comissão de Análise e Prevenção de Acidentes, vem buscar a iniciativa, saber o que está sendo feito no mercado e como o CREA pode contribuir. E hoje eu vejo o CREA como um agente de levar informação, desmistificar os temas que hoje existem ainda no mercado, que a gente atua na mobilidade.

Como minimizar os riscos de incêndios ou outros acidentes?

Muito se fala ainda quanto a riscos, seja do fogo, incêndio, recarga do carro e a gente vê quem está no mercado atuando. A gente vê que muito disso ainda são informações fantasiosas, fake news e tudo o que tem que ser realmente desmistificado, com muito treinamento, esclarecimento e tudo e principalmente o que eu vejo como papel do CREA na fiscalização do profissional técnico. A gente tem que estimular que as instalações sejam feitas de carregadores, a manutenção dessas estruturas sejam feitas por profissionais capacitados, que tenham ali um registro, um histórico profissional para esclarecer, que os contratantes verifiquem o registro profissional, verifiquem o acervo técnico daquele profissional para saber se ele tem um histórico já de trabalho para gente evitar que o exercício da profissão se dê sem a fiscalização, se dê por profissionais que não são habilitados, que não têm capacitação técnica. Então veja que o papel do CREA é muito importante nesse lado, a gente evitar isso. E é bom pra iniciativa privada que os serviços sejam feitos com pessoas capacitadas.

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