Milton Santos e os cem anos de um pensamento que transformou a Geografia brasileira

O centenário de nascimento de Milton Santos, celebrado em 3 de maio de 2026, marca a trajetória de um dos mais importantes intelectuais brasileiros do século XX e uma das principais referências mundiais da Geografia. Cem anos após seu nascimento, seu pensamento permanece atual na interpretação das desigualdades, da urbanização, da globalização e das relações entre sociedade e território. Nascido em 1926, em Brotas de Macaúbas, Milton Santos desenvolveu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espaço geográfico no Brasil. Em um período no qual a Geografia era fortemente associada à descrição física do território, o pesquisador baiano ajudou a consolidar uma perspectiva crítica voltada à análise das relações econômicas, sociais e políticas que produzem o espaço urbano e regional. Sua produção intelectual ganhou força especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960, quando passou a estudar os processos de urbanização e desenvolvimento em países periféricos. Ao analisar as transformações das cidades brasileiras, Milton Santos introduziu interpretações inovadoras sobre pobreza urbana, circuitos da economia, desigualdade territorial e exclusão social. Seus estudos contribuíram para aproximar a Geografia de temas centrais da vida contemporânea, como infraestrutura, mobilidade, técnica, acesso aos serviços e concentração de renda. Perseguido pela ditadura militar após o golpe de 1964, Milton Santos foi preso e posteriormente viveu no exílio durante mais de uma década. Nesse período, lecionou em universidades da França, do Canadá, dos Estados Unidos, da Venezuela e de países africanos, ampliando o alcance internacional de sua produção acadêmica. A experiência do exílio também aprofundou sua leitura crítica sobre dependência econômica, globalização e desenvolvimento desigual entre países centrais e periféricos. Ao retornar ao Brasil, consolidou-se como uma das principais vozes da Geografia crítica latino-americana. Entre suas contribuições mais influentes está a formulação do conceito de “território usado”, entendido não apenas como espaço físico, mas como resultado das relações sociais, econômicas, técnicas e políticas que organizam a vida cotidiana. A partir dessa perspectiva, Milton Santos passou a interpretar o território como elemento ativo da sociedade e não apenas como cenário das ações humanas. Outra contribuição decisiva foi sua crítica ao processo de globalização. Em obras como “Por uma Outra Globalização”, o geógrafo argumentou que o avanço técnico e informacional, embora apresentado como promessa de integração mundial, aprofundava desigualdades e concentrava poder econômico. Ao mesmo tempo, defendia a possibilidade de construção de formas mais solidárias e humanas de organização social. A relevância de sua obra ultrapassou as fronteiras brasileiras. Em 1994, Milton Santos tornou-se o primeiro latino-americano a receber o Prêmio Vautrin Lud, considerado a principal premiação internacional da Geografia. O reconhecimento consolidou a projeção mundial de um pensamento construído a partir da realidade do Sul Global e das contradições sociais presentes nas cidades e territórios periféricos. As homenagens promovidas no centenário têm ressaltado justamente essa permanência de sua produção intelectual. Universidades, entidades científicas e instituições culturais têm destacado a atualidade de suas reflexões diante de temas como desigualdade urbana, segregação socioespacial, concentração de infraestrutura, mudanças tecnológicas e exclusão territorial. Mais do que um geógrafo, Milton Santos tornou-se um intérprete do Brasil e das transformações do mundo contemporâneo. Sua obra ajudou a ampliar o papel da Geografia no debate público brasileiro, aproximando a disciplina das discussões sobre cidadania, desenvolvimento, planejamento urbano e justiça social. Cem anos após seu nascimento, seu pensamento segue como referência para compreender os desafios do território e da sociedade brasileira. Fontes: IEB-USP, FFLCH-USP, Jornal da Unicamp, UFMG e AGB