A saga de César Drucker, o engenheiro que trabalhou os anos dourados da engenharia no Rio
Ele nasceu no Rio de Janeiro em dezembro de 1931, um ano depois do movimento político que transformou o Brasil, a chamada Revolução de 30. Formado em engenharia civil pela Escola Nacional de Engenharia, hoje Politécnica da UFRJ, em 1957, César Drucker, de 93 anos, foi testemunha ocular e depois agente das transformações que moveram o eixo econômico do Brasil do campo (café) para a cidade (indústria). Foi contemporâneo de momentos históricos no Brasil (revoluções e golpes de estado) e no mundo (o início e o fim da Segunda Grande Guerra, conflitos armados e 22 copas do mundo de futebol). Como engenheiro do Distrito Federal e do Estado da Guanabara, Drucker atuou em obras que mudaram a face da infraestrutura da cidade do Rio de Janeiro, como a Estação de Tratamento do Guandu, o Aterro do Flamengo – que faz 60 anos – e o metrô. “Eu vi a deposição do presidente Vargas, em 1945, no fim da guerra. O mesmo presidente cujos governos foram essenciais para o desenvolvimento do país”, lembra César Drucker, que na ocasião era estudante do Colégio Anglo Americano (anteriormente British American School), que funcionava na Praia de Botafogo, na Zona Sul do Rio. Três anos mais velho que o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ), Drucker foi homenageado na sessão dos 90 anos do conselho na Assembleia Legislativa, em 2024. E voltou a receber uma homenagem feita pela Mútua, a Caixa de Assistência do Sistema Confea/Crea, na 80ª Semana Oficial de Engenharia, em Vitória (ES), em outubro, por ser o mais antigo engenheiro em atividade no Brasil. Era o mais idoso entre os oito mil engenheiros que participaram do maior encontro nacional das engenharias. “As pessoas estão vivendo mais tempo hoje em dia. Essa homenagem em nível nacional representa a confirmação da minha proposta para que todos os profissionais, após a passagem para a aposentadoria, venham participar ativamente nas suas entidades de classe, não importa a idade”, afirmou Drucker, lembrando que depois de ter se aposentado aos 58 anos de idade, tem se dedicado às entidades de classe. “Trabalhei 35 anos como engenheiro e trabalho há 35 anos em entidades como a Sociedade Estadual de Arquitetos e Engenheiros do Estado do Rio (SEAERJ), na qual presidi o Centro Cultural , e no Clube de Engenharia, no qual fui diretor cultural”, conta Drucker, eleito conselheiro suplente do CREA-R, que é casado, tem três filhos e um neto. A história da família de César Drucker é uma daquelas sagas que a gente vê em filme de Hollywood, mas é tudo verdade. O pai dele, Isaac Drucker, morava em Lvov, perto de Kiev, hoje Ucrânia, quando começou a Primeira Guerra Mundial, em 1914. Foi convocado pelo Exército Imperial Russo, mas em 1917 ocorreu a revolução soviética, o Império foi dissolvido e começou a guerra civil. Isaac Drucker percebeu que era hora de deixar o país. Na Hungria, estudou química, o que mais tarde permitiu que ele fosse precursor na criação de gordura alimentícia feita de óleos vegetais. Construiu uma fábrica em Nilópolis, na Baixada Fluminense, mas seu produto tornou-se popular como Gordura Carioca, produzida em São Paulo. Para escapar de novos conflitos, Drucker, pai, pensou que seria bom ir para o Novo Mundo. Acabou escolhendo o Brasil. Viveu em Curitiba e depois foi parar no Rio de Janeiro. A família por parte da mãe, Sarah, também vivia na Rússia e decidiu abandonar o país em 1912, dois anos antes da guerra. Por coincidência, sem se conhecer, também tiveram como destino o Brasil para fundar a colônia agrícola Quatro Irmãos, iniciada por alemães em 1825, no Rio Grande do Sul. O projeto deu origem ao município gaúcho com o mesmo nome. “Minha mãe contava que via a mãe dela montada a cavalo pastoreando o gado”, lembra Drucker. O avô materno de Drucker, Marcos Guertzenstein, era um homem de visão. Em busca de melhores condições de vida, ele levou os sete filhos para estudar o antigo científico em São Paulo e mais tarde para concluírem o nível superior no Rio de Janeiro. Foi nesta cidade que Sarah encontrou Isaac. Dessa união nasceu César Drucker. Filho de um casal de imigrantes judeus da Ucrânia (o pai, Isaac, era industrial, e a mãe, Sarah, economista), Drucker é o que pode-se chamar de predestinado. Desde criança, revelou sua vocação para a engenharia. “Quando eu era criança, em vez de chupeta, eu gostava de brincar com chave de fenda, desmontar e montar aparelhos e fazer meu próprio carrinho de rolemã”, lembra Drucker, que conquistou uma das 200 vagas no vestibular para engenharia, que tinha na época nada menos que 800 candidatos. Na Escola Nacional de Engenharia, que funcionava no Largo de São Francisco, no Centro do Rio, Drucker se destacou tanto que, logo após o ingresso, em 1953, acabou sendo contratado para trabalhar como monitor da Cadeira de Física 2, pelo então reitor Pedro Calmon, da então Universidade do Brasil, hoje UFRJ. O professor catedrático era Antônio José da Costa Nunes (1916-1990), considerado o pai da Geotécnica no Brasil. Entre os colegas de turma, Drucker teve Mário Henrique Simonsen, que mais tarde se tornou ministro da Fazenda, e Marcos Pereira Vianna, que foi presidente do BNDES. No 3º ano de faculdade, Drucker conseguiu um estágio na Prefeitura do Distrito Federal, iniciando sua bem-sucedida carreira na engenharia pública. Nos anos dourados da engenharia, César Drucker foi engenheiro da prefeitura do Distrito Federal de 1958 a 1960. Com a transferência da capital para Brasília, foi engenheiro do Estado da Guanabara até 1975, e daí em diante do Estado do Rio de Janeiro. Ele participou durante toda a existência da SURSAN, a Superintendência de Urbanização e Saneamento, criada em 1958 para executar projetos de infraestrutura no Rio de Janeiro, priorizando o saneamento básico, o sistema viário e a modernização urbana. Ele atuava no Departamento de Saneamento devido à sua especialização em engenharia sanitária. trabalhou em obras fundamentais para a infraestrutura da cidade do Rio de Janeiro. São dessa época as obras de água