Muito além do backstage: CREA, CAU e CRT estreiam fiscalização em conjunto nos preparativos para o show da Madonna, em Copacabana

A equipe de fiscais do Crea, CAU e CRT se reúne na entrada do canteiro de obras-300 funcionários e 270 toneladas de equipamentos O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio (Crea-RJ), o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) e o Conselho Regional de Técnicos do Rio (CRT) enviaram nesta terça-feira, dia 30 de abril, fiscais para verificar a atuação de engenheiros, arquitetos e técnicos industriais na montagem da infraestrutura de um dos maiores megaeventos do país, o show da cantora Madonna, que deve levar pelo menos 1 milhão de pessoas à Praia de Copacabana, no dia 4 de maio. – Essa parceria inédita é uma demonstração da unidade entre os conselhos em resguardar e garantir aos profissionais a fiscalização em todas as áreas de atuação — afirmou Cosme Chiniara, gerente de fiscalização do Crea-RJ, que percorreu durante uma hora e meia as instalações da “infraestrutura de um show do tamanho que Madonna merece”. Na atual gestão do presidente do Crea-RJ, o engenheiro Miguel Fernández, foi criado um grupo de trabalho para a fiscalização de megaeventos, com o objetivo de coibir o exercício ilegal das profissões ligadas ao conselho por leigos, fato que ainda hoje acontece. Esta ação tem o objetivo de proteger preventivamente o público usuário de equipamentos culturais e de entretenimento, na medida em que se garante que apenas profissionais e empresas habilitadas atuem nessas atividades. A experiência já foi bem-sucedida no desfile das escolas de samba do carnaval deste ano, quando fiscais do Crea-RJ montaram uma base no Sambódromo, e puderam acompanhar de perto a execução dos serviços por 300 engenheiros de cerca de cem empresas. No carnaval, o Crea atuou em conjunto com o CAU. Todo grande show tem uma área importante, chamada de backstage, onde ficam os camarins dos artistas. A infraestrutura da montagem de um megaevento como o da Madonna é um show à parte, com muita gente trabalhando sem parar, muita tecnologia e equipamentos de altíssima precisão. Tem até estação meteorológica, onde deve atuar um profissional com registro no Crea. No show de Madonna, são nada menos que 270 toneladas de equipamentos, que incluem quilômetros de cabos e centenas de “cases” (aquelas caixas enormes que levam todo tipo de apetrecho), além de oito telões de led e 12 geradores de energia (com um total de 4.400 Kva, potência suficiente para gerar energia para meio Barrashopping). Durante hora e meia, os fiscais dos três conselhos percorreram as instalações do show de Madonna numa área de cerca de 2.200 metros quadrados à beira-mar. No local trabalham cerca de 300 funcionários e desde o dia 14, quando começaram os trabalhos, não há registro de acidente, afirmam os técnicos de segurança do trabalho. – O grande desafio de montar uma estrutura dessas aqui é o solo de areia – explica o coordenador da montagem, Leonardo Gontijo, a serviço da empresa Bônus Track, que recebeu os fiscais do Crea, CAU e CRT. Gontijo tem experiência na produção de outros dois shows de Madonna, além de dez réveillons da orla de Copacabana. Sem parar um minuto, Gontijo delegou a Douglas dos Santos a tarefa de ciceronear os fiscais dos conselhos. Eles percorreram praticamente todas as áreas do show, incluindo os setores VIP da prefeitura e do Itaú, que patrocina o evento. No total, cerca de 10 mil VIPs deverão assistir ao show. Eles estarão acomodados diante do palco, onde há também visão para a passarela que liga o centro do show ao Copacabana Palace. Pela passarela sobre a Avenida Atlântica, Madonna vai passar de carrinho e desembarcar, para pegar um elevador que a levará até a parte traseira do palco. O gerente de fiscalização do Crea, Cosme Chiniara, comentou que a coordenação da montagem do evento demonstrou boa vontade, fornecendo as informações solicitadas pelo Conselho. Cosme observa que foram registradas 23 ARTs (Anotação de Responsabilidade Técnica), de 19 engenheiros. Com as ARTs, o Crea pode acompanhar, em caso de necessidade, os responsáveis técnicos pelo evento. Há 13 empresas de engenharia atuando no local. Um dos responsáveis pela infraestrutura do show, Douglas dos Santos e o gerente de Fiscalização do Crea-RJ, Cosme Chiniara ( à direita) diante do palco onde Madonna vai cantar O diretor de fiscalização e normas do CRT, Luiz Antônio Rocha, afirmou que é histórico o momento em que os fiscais atuam em conjunto para se fazer um trabalho de segurança para quem estiver no evento. – É o primeiro trabalho de vários que virão. Estamos de parabéns em firmar essa parceria entre os conselhos – afirmou Luiz Antônio Rocha, que estimou em 150 a 200 técnicos atuando na montagem do show. Rocha lembrou que os técnicos atuam principalmente na parte elétrica e na edificação para instalação do piso. “É um trabalho de uma responsabilidade tremenda”, observou Rocha., acompanhado do coordenador de fiscalização, Silair Cabral, e uma equipe de fiscais do CRT. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo enviou como representante o fiscal José Roberto Freire, que participou da visita técnica. Ele teve contato com uma das duas arquitetas que estão atuando no local. Freire destacou a importância que é a parceria inédita firmada pelos três conselhos profissionais. – É importantíssima essa fiscalização em conjunto porque ajuda a garantir a segurança do evento, não somente para o público, como o próprio staff do evento – afirmou.

Helio Suêvo, o engenheiro ferroviário que se apaixonou pela ferrovia aos 5 anos de idade

Aos cinco anos de idade, em 1948, o pequeno Helio Suêvo pegava o trem para passear na casa da família, em Muriqui, na Costa Verde fluminense. Essas viagens de trem acabaram entrando na memória afetiva de Helio, que menos de três décadas depois se formava em Engenharia e começava a trabalhar na Rede Ferroviária Federal, como engenheiro estagiário. O ano em que concluiu o curso na Escola Nacional de Engenharia também o marcou por causa de um dos maiores acidentes ferroviários do Rio, o da estação de Magno, perto do subúrbio de Madureira, que matou mais de 30 pessoas e deixou duas centenas de feridos. – Com o acidente, o então presidente Geisel demitiu toda a diretoria da Rede Ferroviária, colocando um general como interventor – lembra Helio Suêvo, que hoje é vice-presidente da Associação de Engenheiros Ferroviários (Aenfer). A Aenfer comemora nesta terça os 170 anos da ferrovia no Brasil. Autor do livro “A Formação das Estradas Ferro no Rio”, Helio Suêvo é uma espécie de guardião da memória das ferrovias no Brasil. Ele está escrevendo um novo livro, agora sobre o ramal de Mangaratiba, o trem de sua infância. O primeiro emprego de Helio foi na Estrada de Ferro Leopoldina. Depois de formado, ele fez um curso de especialização em Engenharia Ferroviária. Trabalhava de dia como engenheiro estagiário e estudava à noite. Um ano depois, passou a exercer o cargo de engenheiro ferroviário residente em Mangaratiba, a 105 quilômetros do Rio. – Eu comecei a andar de trem para aquela região com apenas cinco anos de idade. Alguns trens ainda tinham locomotiva a vapor. Nunca poderia imaginar que anos depois trabalharia na Rede Ferroviária Federal (estatal que foi privatizada em 1999) – conta Helio Suêvo. Com a família, ele andou até de Macaquinho, o trem de madeira que saía da Estação de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, em direção à Costa Verde. Mais tarde, Suêvo foi o responsável pela interdição da ponte do Canal de São Francisco, que acabou resultando na extinção do Macaquinho, por pressão das empresas de trens de carga. Aposentado desde 2004, Helio Suêvo é hoje consultor de Engenharia Ferroviária. Por 29 anos, ele acompanhou boa parte da história das ferrovias no Brasil. – A ferrovia é um brinquedo muito caro e no Brasil deixou de ser uma política de estado para ser uma política de governos – observa o engenheiro. Enquanto Estados Unidos, Rússia e China mantêm ativa sua rede ferroviária, o Brasil passou de 38 mil quilômetros de ferrovia, em 1957, para, no máximo, 31 mil hoje, dos quais 29 mil quilômetros estão sob concessão de seis empresas de carga. Suêvo lembra que a redução das ferrovias começou por volta de 1957 no governo Juscelino Kubitschek, sob a pressão da indústria automobilística americana. Os Estados Unidos, entretanto, investiu nas rodovias, mas ainda mantêm 280 mil quilômetros de ferrovias. Enquanto isso, a China – a segunda economia do mundo – lidera o segmento de trens de alta velocidade (350 Km/hora) com uma rede ferroviária de 40 mil quilômetros, de um total de 150 mil quilômetros de ferrovias.