HEITOR
DE MELLO,
O ARQUITETO DA PRIMEIRA REPÚBLICA
Olinio Coelho
Nas
duas primeiras décadas do século XX a arquitetura do
Rio de Janeiro apresenta como sua maior figura o notável arquiteto
Heitor de Mello. Sua atividade profissional desenvolve-se desde sua
diplomação pela Escola Nacional de Belas Artes no início
desse século até sua morte prematura em 15 de agosto
de 1920.
Era filho do renomado Almirante Custódio de Mello, notável
figura no cenário político do país, e de D. Edelvira
Pereira Pinto, descendente de Vasco Fernandes Coutinho, Antonio de
Mariz e de Julião de Macedo, alguns dos fundadores da Cidade
do Rio de Janeiro, onde nasceu em 12 de setembro de 1875, na Avenida
Nossa Senhora de Copacabana.
Era um homem de 1,73 m de altura, cabelos e bigodes castanhos, de
fina aparência, de maneiras cavalheirescas e freqüentador
dos mais importantes círculos sociais da cidade. Inteligente
e versátil, era profundo conhecedor da história da arquitetura
universal sem nunca ter viajado ao exterior, possuindo esplêndida
biblioteca especializada em artes e arquitetura. Casou-se com D. Sylvia
Rodrigues Peixoto e deste casamento nasceram duas filhas, Maria Luiza
e Maria Cecília.
Recebeu o grande prêmio de honra da Seção de Arquitetura
da Exposição Internacional de 1908 e foi classificado
em primeiro lugar no concurso internacional para o Palácio
do Congresso e nos concursos nacionais para o edifício do Jockey
Club, na Avenida Rio Branco e para o Arco Comemorativo do Primeiro
Centenário da Abertura dos Portos no Brasil.
Em 1912, foi classificado em primeiro lugar no concurso público
para professor catedrático de Composições de
Arquitetura, seu Desenho e Orçamentos, da antiga Escola Nacional
de Belas Artes, hoje a conceituada Escola de Belas Artes da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, exercendo com grande proficiência
o magistério.
Era membro da Sociedade de Arquitetos de Buenos Aires e várias
vezes fez parte da Seção de Arquitetura do Salão
Anual de Belas Artes.
Eclético como todos os seus contemporâneos, o que é
provado pela relação de suas obras, que felizmente é
conhecida, "esforçou-se por manter em cada projeto certa
coerência estilística, só raramente tendo misturado
estilos no mesmo edifício, o que, nos demais arquitetos era
muito comum", diz o Professor Paulo Santos.
Além dos estilos Luis XV e Luis XVI, em que projetara durante
os primeiros anos de sua carreira, realizou também obras em
estilos históricos, como néo-grego e renascimento e
foi o pioneiro em projetar em estilo neocolonial, no qual realizaria
os últimos projetos de sua carreira: o Grupo
Escolar D. Pedro II, ainda existente em Petrópolis, um
grande hotel para o Leme e outro hotel para a Avenida Atlântica,
não construídos, e ainda algumas residências,
como a de Raul Barreto, na Rua Domingos Ferreira e a de Júlio
Caetano Horta Barboza, na Avenida Copacabana, ambas já demolidas.
Sua carreira é inesperadamente encerrada quando seu escritório
estava no apogeu de suas atividades, com um grande número de
projetos encomendados, entre os quais o do Conselho Municipal, atual
Câmara Municipal do Rio de Janeiro, cujo projeto não
chegara a elaborar, e diversas residências. Assumiria a direção
do seu escritório, seu antigo aluno e auxiliar, o arquiteto
Archimedes Memoria que, com o arquiteto francês Francisque Cuchet,
terminaria seus projetos e obras, mantendo seu nome no escritório
- Escriptorio Technico Heitor de Mello. Seus sucessores, seguindo
a linha classicizante do mestre Heitor de Mello, projetariam em estilo
Luis XVI o Palácio das Festas da Exposição do
Centenário da Independência do Brasil e a Câmara
Federal, hoje Assembléia Legislativa, ambos de 1921, como ainda
o Prado do Jockey Club do Brasil, em 1924.
Entre os seus mais importantes trabalhos figuram: os edifícios
das sedes do Jockey
Club e do Derby
Club e o edifício da Perfumaria
Bazin, todos na antiga Avenida Central, hoje, Avenida Rio Branco,
já demolidos; a residência Ernesto da Silveira, na Rua
Marques de Olinda; a modificação da residência
William Roberto Lutz, na Rua Mariz e Barros e a residência Brant
Paes Leme, na Rua Senador Vergueiro, também não mais
existentes.
Restam de sua grande produção a residência conhecida
como Castelinho
Francês, na Avenida Oswaldo Cruz, esquina da Praia do Flamengo,
tombada como monumento cultural da Cidade do Rio de Janeiro, em que,
em reduzido terreno de forma triangular, o arquiteto ergueu uma de
suas melhores obras, considerados o apuro de suas proporções
e equilíbrio do edifício; o Hospital
Central do Exército, na Rua Francisco Manoel; a Delegacia
de Polícia, na Rua do Catete; o Palácio
da Polícia Central, na Rua da Relação; a
residência Rego Barros, hoje o Gurilândia
Clube Infantil, na Rua São Clemente, e algumas construções
para o Corpo de Fuzileiros Navais, na Ilha das Cobras, entre elas
a residência
para o comandante, não mais existente, e o grande quartel,
muito descaracterizado com o acréscimo de dois pavimentos e
modificações
de sua torre central, mantendo, no entanto alguns espaços interiores
preservados.
Fora da Cidade do Rio de Janeiro encontramos ainda o Grupo
Escolar de Nova Friburgo,o Grupo
Escolar D. Pedro II, em Petrópolis, e no Cemitério
Municipal de Curitiba ainda podemos ver o belíssimo túmulo
de harmoniosas linhas Luis XVI erguido para a Família Carneiro.
Em Belo Horizonte foi autor do edifício dos Correios
e Telégrafos e de um pavilhão para uma feira, ambos
demolidos.
Heitor de Mello organizou em moldes empresariais o primeiro escritório
de arquitetura e construções do Rio de Janeiro. Além
de projetar e executar seus próprios projetos, realizou importantes
construções na cidade, como o antigo edifício
do Clube
de Engenharia, com projeto do arquiteto Raphael Rebecchi e um
grande edifício comercial projetado por A. Morales de los Rios,
ambos na Avenida Rio Branco, já demolidos. Construiu ainda
o Palácio
Cardinalício de São Joaquim, no Catete, também com projeto desse
arquiteto.
Em 1914, vencendo concorrência pública, iniciou a construção
do Palácio
da Assembléia, Secretaria de Polícia, Escola Normal
e Palácio da
Justiça, em Niterói, com projetos do arquiteto francês
Émile Dupuy Tessain, não completando sua execução,
pois que seu contrato fora rescindido em 1916. Ainda para essa cidade,
antiga capital do Estado do Rio de Janeiro, executou os projetos para
uma biblioteca pública
e uma secretaria
de estado, ambos não realizados.
Integrado no ecletismo arquitetônico de sua época Heitor
de Mello destacou-se de seus contemporâneos pela pureza e correção
estilística que emprestava às suas obras. Apesar de
sua arquitetura de caráter eclético, é indiscutível
que sua grande criatividade, sua sensibilidade artística e
seu profundo conhecimento técnico do ofício de construir
certamente o conduziriam ao movimento da arquitetura modernista que
começava a se configurar no Brasil, quando de seu falecimento
em 1920.