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Seminário Os Impactos do Eucalyptus
Com o anúncio
da assinatura de um protocolo de
intenções entre o Governo Estadual e a Aracruz
Celulose S.A. para a implantação de plantios
comerciais de Eucalyptus no norte fluminense, a
APEFERJ tem levantado esta discussão entre
diversos segmentos da sociedade. Existe uma grande
polêmica sobre este assunto e um movimento que
aponta impactos sociais causados pela monocultura
do eucalipto chamado de Deserto Verde. Por outro
lado a demanda mundial por madeira e seus derivados, principalmente o papel,
cresce à cada ano. Somente 14% deste mercado provêm de plantios
florestais (maior parte de Eucalyptus), os outros 86% são provenientes
da exploração das florestas naturais, sendo em sua maioria
desmatamentos clandestinos que já levaram ao desaparecimento de 46%
da cobertura florestal do planeta.
No Brasil, o consumo interno anual é de 370 milhões de metros
cúbicos e apenas 110 milhões são oriundos dos plantios
florestais que ocupam 0,7% do território brasileiro. Para atender
este consumo são cortados 450.000 hectares todo ano, mas apenas 170.000
hectares estão sendo plantados.
Discutimos o assunto
nas reuniões da APEFERJ e através da redeflorest@l, realizamos
consultas, revisão bibliográfica, analisamos uma série
de documentos da rede contra o deserto verde, como os anais de dois seminários
realizados, e também visitamos as instalações da Aracruz
no Espírito Santo, representados pelo Presidente Glauber Pinheiro
e pelo 1º-Tesoureiro Carlos Fabiano DAltério que percorreram
as áreas de pesquisa, viveiros, reservas de mata atlântica
e plantios florestais.
Para confrontar estas posições antagônicas promovemos,
com o apoio do CREA-RJ e do Movimento de Cidadania pelas Águas, o
seminário Os impactos do Eucalyptus que contou com aproximadamente
180 parti-cipantes, entre eles Álvaro Garcia, Presidente da Associação
de Engenheiros Florestais do Espirito Santo, Rosa Roldan e Abrahin Farrat,
do Comitê Chico Mendes no Acre, Dr. Tokitika Morokawa, professor do
Instituto de Florestas da UFRRJ e membro do Conselho Deliberativo da APEFERJ,
Sandra Faillace, Socióloga da FASE, o sócio-fundador da APEFERJ
Marcelo Carvalho, Presidente da Planta Rio, Eduardo Coelho, Diretor da Reserva
Florestal do Grajaú, o renomado Geógrafo Elmo Amador e o Dr.
Haroldo de Mattos Lemos, Presidente do Brasil PNUMA.
A primeira palestra foi proferida pelo ilustre Sebastião Pinheiro,
Eng.º Florestal e Agrônomo da Fundação Juquira
do Rio Grande do Sul. Conhecido defensor das populações tradicionais,
da agricultura familiar e da biodiversidade, contou sobre uma comunidade
em Zâmbia que tinha uma identificação cultural com o
tamarindeiro, apesar do tamarindo não ser uma árvore africana
e sim indiana. Um sacerdote inglês julgou heresia a devoção
pelas árvores e ordenou o corte, levando à comunidade ao total
desaparecimento. Na visão de Sebastião é preciso que
se faça um zoneamento, seja para o Eucalyptus ou para o Tamarindus.
Seguiu dizendo que não é possível a sociedade continuar
com o mesmo discurso contra ou à favor, isto
não constrói. É um maniqueísmo medieval, pré-industrial.
Precisamos colaborar, discutir junto às empresas e o poder público,
no sentido de tornar um empreendimento positivo para a sociedade. Hoje o
mercado só tem espaço para empresas que são politicamente
corretas, é bom para eles e para nós. O Rio de Janeiro tem
sorte pela possibilidade de um empreendimento diante a crise que vivemos,
só é preciso que seja feito de maneira correta, beneficiando
a maioria.
Posteriormente, Ricardo Valcarcel, professor do Dep. de Ciências Ambientais
da UFRRJ e membro do Conselho Deliberativo da APEFERJ, apresentou dados
obtidos em suas pesquisas com recuperação de áreas
degradadas e manejo de bacias hidrográficas, sua especialidade. Destacou
que as áreas de várzea não devem ser utilizadas para
o plantio de eucalipto, porém apre-sentou outras que podem hospedar
estes plantios trazendo vantagens para o meio ambiente, principalmente em
áreas do norte fluminense que sofrem um processo intenso de desertificação.
O professor do Dep. de Silvicultura do Instituto de Florestas da UFRRJ,
Sílvio Nolasko, disse que a cultura do eucalipto deve ser tratada
como outra qualquer. Comparando-a com culturas agrícolas, apresentou
dados relativos ao consumo de nutrientes do solo.
Em sua palestra o Presidente da APEFERJ, Glauber Pinheiro, enfocou a importância
do desenvolvimento do setor florestal, como forma de suprir a demanda por
matéria prima e como fator preponderante para a recuperação
ambiental, ocupando as áreas degradadas no estado. Diz que a maioria
destas áreas foram destruídas durante muitos anos pela monocultura
do café, da cana e pelas pastagens, ecofisionomias bem diferentes
da cobertura vegetal original de um país tipicamente florestal. Um
país que o próprio nome retrata uma árvore.
Acredita que os plantios podem colaborar produzindo mais biomassa, protegendo
o solo contra erosão, recuperando áreas, na manutenção
dos ciclos hidrológicos. Bem planejados podem servir ainda como corredores
de vegetação para a fauna, para o sequestro de carbono, com
sub-bosque de biodiversidade superior à atual e principalmente criando
condições para que de forma gradativa possam estar sendo introduzidas
espécies nativas para a recuperação da mata atlântica.
Primando pela organização do espaço através
de um zoneamento, apontou a ausência de uma política florestal
no estado, que deveria estabelecer critérios para a viabilização
de um empreendimento florestal, baseada em parâmetros técnicos,
econômicos e sobretudo sociais e ambientais. Ressaltou que os reflorestamentos,
estatisticamente, seguem as normas de licenciamento, manutenção
das áreas de preservação permanente e reserva legal,
bem como a recuperação das mesmas, em índices muito
maiores do que a agricultura e a pecuária.
A apresentação da Aracruz foi feita pelo Eng.º Agrônomo
Auro Campi, sobre o Projeto Micro-Bacias que coordena e pelo Eng.º
Tadeu Musse, Gerente Florestal, falando sobre os planos da empresa para
o Rio de Janeiro. Disse que pretendem comprar 17.000 ha e investir em outros
25.000 através do fomento à pequenos produtores rurais, que
este total seria relativo à 5% das áreas ocupadas com pastagens
degradadas na região, o que poderia beneficiar o pequeno produtor
rural.
Após as palestras, o Presidente da APEFERJ deu início ao debate.
O Dr. Haroldo de Mattos declarou que também é professor de
Engenharia Ambiental da UFRJ e por muito tempo combateu o uso do eucalipto,
mas que foi mudando sua concepção ao longo dos anos em que
passou à pesquisar e conhecer melhor este tema. A Eng.ª Florestal
Sabina Campagnani, representando o Clube de Engenharia, fez uma abordagem
sobre a economia mundial e o mercado de celulose, questionando a possibilidade
de competitividade brasileira no mercado agrícola e florestal, com
a possível implantação da ALCA. Falou ainda sobre a
depauperação da agricultura no norte fluminense e a degradação
ambiental. O Sociólogo Marcelo Calazans, da FASE do Espírito
Santo, fez graves acusações à empresa, inclusive de
homicídios. Foi desafiado à apresentar provas pela platéia,
com a intervenção do Diretor de Meio Ambiente da Aracruz,
Carlos Alberto Roxo, que solicitou cópia das gravações
à coordenação do evento. Fernando Moura, representando
o MST, apelou para a necessidade de uma reforma agrária, onde o norte
fluminense seria área destinada para tal. Sérgio Ricardo,
representante da APEDEMA, teceu críticas ao Governo Estadual, incitando
o público quando denunciou a não publicação
do protocolo de intenções da Aracruz em Diário Oficial.
Logo foi contestado pelo Eng.º Florestal Paulo Schiavo, Diretor de
Conservação do IEF, que informou o dia da publicação
no Diário Oficial. Schiavo também esclareceu que todos aqueles
que consomem papel, seja na forma de cigarros, higiênicos, embalagens
etc., colaboram com a Aracruz e os plantios homogêneos de eucalipto.
O Eng.º Florestal Edvá Oliveira Brito, membro do Conselho Fiscal
da APEFERJ, representando o Instituto de Florestas da UFRRJ, perguntou se
alguém teria dúvidas sobre os dados apresentados pelos professores
de universidades presentes, que Sérgio Ricardo referiu-se como lobystas
de empresas. Edvá disse que os dados apresentados pelos
professores não trazem voto, mas têm comprovação
científica.
O Presidente da APEFERJ declarou que percebe que esta questão
tem servido como palanque para muitos que têm pretensões eletivas
ou de cargos nos primeiros escalões da política ambiental
no estado
e manipulam irresponsavelmente a opinião pública para ganhar
espaço na mídia. Diante disso, a vida do homem do campo, o
desenvolvimento, a proteção e recuperação ambiental,
têm ficado
em segundo plano, embora sejam usadas como os principais
argumentos. Disse, que como cidadão, é contra o favorecimento
de
qualquer empresa através dos recursos públicos, e citando
o estatuto da APEFERJ, destacou toda a preocupação social
da entidade. Glauber encerrou dizendo que enquanto estiver na presidência,
as questões ambientais e sociais nunca serão sobrepostas pelos
interesses corporativos de uma categoria ... todas as posições
de nossa entidade sempre estarão fundamentadas cientificamente e
à serviço da sociedade.